Como prevenir e tratar a dependência química na família e na escola

Claudio Paris

Prof Magrão

Quais razões levam um jovem a usar drogas? Como ajudá-lo a se livrar das drogas? O que se entende por drogas e dependência? Essas e outras questões são complexas e demandam uma análise um mais aprofundada do fenômeno da drogadição.

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Maconha, heroína, LSD, cocaína, crack etc, chamadas de drogas popularmente, são substâncias psicoativas (SPAs), que tem convivido de alguma forma com o homem na maioria dos grupos sociais. Algumas tem origem natural, outras são feitas em laboratório, determinando inúmeros efeitos no sistema nervosa central. Tais efeitos modificam o estado geral da mente, corpo e conduta do usuário, chamado de drogadicto, pois esse fenômeno é tratado atualmente como uma patologia ou doença grave, denominada drogadição.

A drogadição é um fenômeno antigo, amplamente relatado na literatura médica, que se tornou-se um problema de saúde pública em meados da segunda metade do século 20, em especial nos centros urbanos. Hoje em dia a percepção generalizada é que há um crescimento significativo no consumo de substâncias psicoativas, acompanhado do uso cada vez mais precoce, em faixas etárias cada vez mais jovens.

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Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelaram em um pesquisa quais os principais motivos para experimentação de SPAs:

a- satisfação de curiosidade a respeito dos efeitos das drogas ;

b- necessidade de participação em um grupo social ;

c- expressão de independência ;

d- ter experiências agradáveis, novas e emocionantes ;

e- melhora da “criatividade”;

f- favorecer uma sensação de relaxamento ;

g- fugir de sensações / vivências desagradáveis .

A seguir, a OMS elencou os 5 fatores principais de risco para o consumo de SPAs:

1- indivíduos sem adequadas informações sobre os efeitos das drogas;

2- saúde deficiente;

3- insatisfação com sua qualidade de vida;

4- personalidade deficientemente integrada;

5- com facilidade de acesso às drogas.

Tais riscos são potencializados, de muitas formas, pelo modo de vida contemporâneo e as relações cada vez mais fluidas que tendem a se estabelecer na sociedade.

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As drogas podem provocar um fascínio e atração, apoiadas no contexto social e cultural contemporâneo, que incorpora elementos da chamada pós-modernidade. Zygmunt Bauman, sociólogo contemporâneo, é o mentor do conceito do “mundo líquido”. Segundo ele diferentemente da sociedade moderna anterior, que ele chama de “modernidade sólida”, tudo está agora sendo permanentemente desmontado, sem perspectiva de permanência, tudo é temporário, caracterizando a metáfora da “liquidez” para explicitar o estado da sociedade moderna. Nessa perspectiva, materiais líquidos, como uma suco de laranja, se acomoda de várias formas a diferentes recepiente: copos, garrafas, panelas etc. Para bauman, essa sociedade se caracteriza pela incapacidade de manter a forma, as instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções, mudando antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “autoevidentes”.

Bauman enfatiza um aspecto dramático desse fenômeno: em especial os jovens não podem mais contar, como a antiga geração, com a natureza permanente do mundo lá fora, com a durabilidade das instituições, que tinham antes toda a probabilidade de sobreviver aos indivíduos. Contidas nessa “liquidez”, o fenômeno da drogadição e a disseminação do consumo de substâncias psicoativas espelham o modo como muitos jovens se relacionam atualmente, reforçando valores baseados no consumismo, em busca do prazer imediatista e associados à pauperização de importante parcela da população em todo o mundo.

Quando um indivíduo se torma dependente, a “liquidez” de seu mundo é ainda mais aguda. A dependência pode ser entendida como o impulso que impele uma pessoa a usar uma droga com a finalidade de saciar seu desejo e lhe conferir prazer. O chamado drogadicto, ou dependente, caracteriza-se por ser incapaz de controlar seu desejo de consumir drogas, tendo um comportamento impulsivo e repetitivo, muito alterado do seu padrão habitual. A dependência também é marcada pela síndrome de abstinência. De modo geral, os sintomas da abstinência estão associados a ansiedade, mal estar e desconforto incontrolável; além de outros sinais inespecíficos como tremor nas mãos, náuseas, vômitos e até um quadro de abstinência agudo denominado “delirium tremens”, com risco de morte, em alguns casos. Tais sintomas podem variar de pessoa para pessoa.
Atualmente há inúmeros medicamentos capazes de minimizar tais efeitos, porém a cura para a drogadição é extremamente difícil, o tratamento é demorado e muito custoso emocionalmente ao dependente e todos os envolvidos em sua família e ciclo social. O tratamento da dependência não pode se restringir ao uso de medicações.

Dentre tantas polêmicas sobre as drogas e a drogadição, há uma constatação muito disseminada entre especialistas: o êxito na recuperação e tratamento estão ligados a uma reorganização psicossocial do indivíduo. Psicólogos e terapeutas apresentam um grande arsenal de estratégias que colaboram nesse processo, deixando claro que um problema de tal complexidade, exige uma abordagem terapêutica aliada a iniciativas que afastem o dependente das drogas, como a arte, a prática esportiva e atividades interessantes e prazerosas, capazes de ocupar o tempo utilizado anteriormente com a drogadição, dentro de um novo contexto, saudável, construtivo e estimulante. Por isso é fundamental o papel da escola, da comunidade e da família, atuando conjuntamente e em harmonia, favorecendo o processo de recuperação das pessoas que são vítimas da dependência.

O desafio de pais e educadores é promover um amálgama de saberes tradicionais (“legado”) com novos saberes (“futuro”) por meio de práticas que atinjam os jovens nos sentidos, levando-lhes a desenvolver uma percepção de que há vida, alegria e saúde longe das drogas e da drogadição.

Deve-se, enfim, incorporando o pensamento de Bauman, criar uma nova matriz “líquida” capaz de promover uma cultura de tolerância, solidariedade, respeito mútuo, cidadania, autonomia e protagonismo social.

Vivemos na fluidez, em períodos desafiadores, tempo de incertezas e novos desafios, mas fortalecidos pela certeza que a luta contra as drogas é dever de cada um de nós.

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